Mitologia em torno do Vale do Silício ajudou startup de diagnósticos a lucrar bilhões com exames falsos

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Com benevolência da mídia, Elisabeth Holmes, CEO da Theranos, usou em seu favor a lenda em torno de jovens que largam a universidade para fundar empresas de tecnologia; agora ela é acusada de fraude

John G. Mabanglo/EPA/EFE – 16/12/2021Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, deixa o tribunal de San Jose, na Califórnia

Nos Estados Unidos, está terminando o julgamento por fraude de Elizabeth Holmes, fundadora e CEO da empresa de diagnósticos Theranos. Para resumir uma longa história, Holmes ficou famosa como jovem prodígio, que abandonou os estudos na universidade de Stanford, aos 19 anos, para fundar uma startup, que, segundo ela própria, iria revolucionar a medicina. A Theranos dizia ter desenvolvido um laboratório em miniatura, uma caixa preta que realizava uma série de exames usando apenas uma gota de sangue. Mas esta revolucionária máquina não funcionava. A CEO claramente usava a seu favor a mitologia em torno de jovens que largam universidades de prestígio para fundar empresas de tecnologia — Bill Gates, Mark Zuckerberg e, especialmente, Steve Jobs, quem a empresária imitava abertamente. O hype em torno do Vale do Silício parece ter baixado os níveis de ceticismo da imprensa, que cobriu tanto a empresa quanto a CEO com credulidade pelos primeiros anos. A confusão deliberada entre uma companhia de tecnologia e uma da área de saúde (assim como a Uber se vende como empresa de tecnologia, não de transporte) e a cobertura feita mais pela imprensa de negócios do que por especialistas em ciência e saúde podem ter facilitado as mentiras. Ou, pelo menos, tornado alguns “usos extremos de criatividade” mais aceitáveis por serem avaliados no contexto da cultura das startups, sem o rigor da ciência e da medicina.

Holmes construiu sua reputação e a da sua empresa através da mídia e de um conselho de administração composto de figuras poderosas —políticos, militares, banqueiros. Mas não médicos e cientistas: tanto no conselho quanto entre os funcionários, quem fazia muitas perguntas era demitido. Quem denunciava problemas sofria intimidação. Seja por terem sido, de fato, enganados ou por interesse financeiro, esses poderosos emprestaram sua fama e contatos para reforçar a aparência de legitimidade da empresa e ajudar a atrair investimentos, parceiros e ainda mais atenção da mídia. Mas, segundo testemunhas no julgamento, grandes empresas que começaram negociações para oferecer o produto da Theranos acabaram desistindo ao analisá-lo com mais atenção (ou depois de repetidas respostas evasivas da CEO). Só uma rede de farmácias chegou a oferecer os exames em algumas lojas, talvez por não querer perder a chance de lançar a nova e glamourizada tecnologia antes da concorrência. Essa parceria fez muito pelo nome da empresa e prejudicou inúmeros pacientes. Médicos estranharam os resultados e fizeram reclamações. Cientistas sabiam que o que a empresa dizia fazer não era possível. Mas, por anos, o marketing prevaleceu. Foi só quando o “Wall Street Journal” revelou que a empresa secretamente fazia exames em equipamento de outros fabricantes que a história começou a degringolar. Além de um livro publicado pelo jornalista que revelou a fraude (“Bad Blood: Fraude Bilionária no Vale do Silício”), o caso já rendeu um documentário e vai virar filme. 

É uma história muito mais complicada do que este resumo, que faz pensar sobre a crença comum de que a tecnologia vai resolver todos os problemas. Mesmo que um dia seja possível fazer diversos testes com uma gota de sangue, isso não necessariamente levará à revolução na medicina alardeada pela CEO, que sugeria que exames de sangue fáceis e baratos, feitos com frequência, permitiriam o diagnóstico e tratamento precoce de diversas doenças. Exames feitos em pessoas saudáveis sem indicação médica raramente têm benefícios que justifiquem tanto os custos quanto os riscos de falsos resultados positivos — que, por sua vez, causam estresse e mais exames e procedimentos desnecessários. No julgamento, os fatos estão menos em dúvida do que a divisão de culpa entre Holmes, seu ex-namorado e COO, outros membros da empresa e os próprios investidores. A outrora jovem prodígio pode ser condenada a até 20 anos de prisão. É possível que o veredito saia antes do fim do ano.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.





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