{"id":8523,"date":"2022-01-25T07:00:37","date_gmt":"2022-01-25T10:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/fmkerigma.com.br\/sao-paulo-468-anos-cidade-desumana-generosa-que-amamos-e-odiamos-da-cracolandia-da-paulista-e-do-caos\/"},"modified":"2022-01-25T07:00:37","modified_gmt":"2022-01-25T10:00:37","slug":"sao-paulo-468-anos-cidade-desumana-generosa-que-amamos-e-odiamos-da-cracolandia-da-paulista-e-do-caos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fmkerigma.com.br\/kerigma\/sao-paulo-468-anos-cidade-desumana-generosa-que-amamos-e-odiamos-da-cracolandia-da-paulista-e-do-caos\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Paulo, 468 anos: cidade desumana, generosa, que amamos e odiamos, da cracol\u00e2ndia, da Paulista e do caos"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<p>No anivers\u00e1rio da capital, o poeta \u00c1lvaro Alves de Faria escreve uma cr\u00f4nica sobre a metr\u00f3pole; confira abaixo<\/p>\n<div>\n<div class=\"post_image\"><span class=\"image_fonte\">ALF RIBEIRO\/ESTAD\u00c3O CONTE\u00daDO<\/span><img width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2018\/12\/Ciclovia-Avenida-Paulista-Alf-Ribeiro-Estad\u00e3o-Conte\u00fado-1024x683.jpg\" class=\"img-responsive type:primaryImage wp-post-image\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2018\/12\/Ciclovia-Avenida-Paulista-Alf-Ribeiro-Estad\u00e3o-Conte\u00fado-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2018\/12\/Ciclovia-Avenida-Paulista-Alf-Ribeiro-Estad\u00e3o-Conte\u00fado-750x500.jpg 750w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2018\/12\/Ciclovia-Avenida-Paulista-Alf-Ribeiro-Estad\u00e3o-Conte\u00fado-768x512.jpg 768w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2018\/12\/Ciclovia-Avenida-Paulista-Alf-Ribeiro-Estad\u00e3o-Conte\u00fado-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2018\/12\/Ciclovia-Avenida-Paulista-Alf-Ribeiro-Estad\u00e3o-Conte\u00fado-648x432.jpg 648w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2018\/12\/Ciclovia-Avenida-Paulista-Alf-Ribeiro-Estad\u00e3o-Conte\u00fado-864x576.jpg 864w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2018\/12\/Ciclovia-Avenida-Paulista-Alf-Ribeiro-Estad\u00e3o-Conte\u00fado-506x337.jpg 506w, https:\/\/jpimg.com.br\/uploads\/2018\/12\/Ciclovia-Avenida-Paulista-Alf-Ribeiro-Estad\u00e3o-Conte\u00fado.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" loading=\"lazy\"\/><span class=\"image_credits\">Cena noturna da ciclovia da Avenida Paulista, na regi\u00e3o central da cidade de S\u00e3o Paulo<br \/><\/span><\/div>\n<p>Eis a <strong>cidade de <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/jovempan.com.br\/tag\/sao-paulo\" rel=\"noopener\">S\u00e3o Paulo<\/a>, 468 anos<\/strong>. Eis a cidade brilhando na noite de seus luminosos e triste nos seus becos escondidos. Eis a cidade, 468 anos. Toda essa gente caminhando para todos os lados, um universo em movimento constante andando em todas as dire\u00e7\u00f5es em busca da vida de cada dia. Eis a cidade da <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/jovempan.com.br\/tag\/avenida-paulista\" rel=\"noopener\"><strong>Avenida Paulista<\/strong><\/a>, centro de tudo, centro do dinheiro, centro da eleg\u00e2ncia, centro da anarquia, centro dos bares que ainda existem com gente que passa a noite discutindo o nada at\u00e9 que chegue a alta madrugada e todos saem para suas casas deixando a revolu\u00e7\u00e3o para depois.\u00a0Eis a cidade, 468 anos, a cidade da Paulista e de todas as periferias mais pobres esparramadas pelos bairros distantes, onde crian\u00e7as brincam esquecidas sem brinquedo nenhum e os trabalhadores chegam com fome, esses que se arrastam nesse ex\u00e9rcito de desempregados que suplicam o p\u00e3o de cada dia para os filhos sentados \u00e0 mesa que n\u00e3o existe esperando um copo de guaran\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Esta \u00e9 a cidade que amamos e odiamos com a mesma intensidade, esta cidade que n\u00e3o para, que se move dia e noite, noite e dia<\/strong>. Esta cidade que tem outra cidade debaixo de seu asfalto, outra cidade que vive e corre nos trilhos do metr\u00f4 e dos fios el\u00e9tricos, essa cidade que subterr\u00e2nea leva a mesma vida que a cidade do asfalto e seus pr\u00e9dios com olhos de raiam e escrit\u00f3rios modernos com gente elegante, esta cidade de S\u00e3o Paulo com lindas mulheres atravessando as ruas com gestos delicados, esta cidade das mulheres caladas sentadas nas cal\u00e7adas esperando alguma moeda em troca de um olhar e de uma palavra.\u00a0A cidade subterr\u00e2nea acesa dia e noite <strong>com esse metr\u00f4, um bicho que avan\u00e7a sempre por nomes de santos, S\u00e3o Judas, Santa Cec\u00edlia, Santo Amaro, Santa Cruz<\/strong>, Santu\u00e1rio de Nossa Senhora de F\u00e1tima, no Sumar\u00e9, e tantos outros nomes da geografia paulistana e tantos outros santos e santas debaixo do solo; os trens que v\u00eam de longe, de uma cidade que n\u00e3o tem tamanho, cheios de gente, sempre cheios, assim como os vag\u00f5es do metr\u00f4, sempre cheios, sempre cheios de gente que luta sem parar toda hora; os \u00f4nibus sempre cheios, sempre cheios, de uma gente cansada que sai de madrugada e volta no meio da noite de um trabalho dif\u00edcil e distante, n\u00e3o h\u00e1 tempo para nada, \u00e9 tudo muito distante, \u00e9 tudo muito longe; as manifesta\u00e7\u00f5es no <strong>Masp<\/strong> na Paulista, gente que reivindica e ergue bandeiras verdes e amarelas, vermelhas, com a cor do arco-\u00edris, com todas as cores, bandeiras, bandeiras, a cidade das manifesta\u00e7\u00f5es contra tudo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ser contra tudo, o vandalismo, a banaliza\u00e7\u00e3o do crime, <strong>cidade desumana mas tamb\u00e9m generosa<\/strong>, a cidade de refei\u00e7\u00e3o a R$ 1, o com\u00e9rcio na 25 de Mar\u00e7o, no Largo Treze, as lojas finas de roupas europeias, cidade de tudo quebrado, a cidade tantas vezes abandonada, os monumentos quase destru\u00eddos, os v\u00e2ndalos da cidade, S\u00e3o Paulo, 468 anos, os assaltos \u00e0 m\u00e3o armada a qualquer hora do dia e da noite em qualquer lugar, a cidade de criminosos que matam por matar, <strong>a cidade de S\u00e3o Paulo da cracol\u00e2ndia, onde os p\u00e1rias da vida esperam a hora de morrer<\/strong> diante do olhar do policial e dos traficantes que armam barracas para vender drogas, pessoas mortas que ainda andam por aquelas ruas sem ningu\u00e9m, sen\u00e3o sombras que perambulam de uma cal\u00e7ada a outra e os traficantes livres, os traficantes livres, os traficantes livres diante da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Meninas gr\u00e1vidas sem m\u00e3e nem pai, eis a cidade de <strong>S\u00e3o Paulo, 468 anos, a cidade que tantos amamos, a cidade que odiamos tamb\u00e9m, a cidade de toda gente brasileira<\/strong>, de Pernambuco,\u00a0 Alagoas, de Piau\u00ed, do Maranh\u00e3o, de Mato Grosso, cearenses, baianos, do Tocantins, do Brasil inteiro de tantos lugares que nem chegam a existir, a cidade Serra Pelada, onde todos v\u00eam em busca da vida garimpando a terra em busca da salva\u00e7\u00e3o, estrangeiros do mundo, todos aqui misturados numa s\u00f3 ra\u00e7a, uma s\u00f3 ra\u00e7a paulistana feita de amor e de dor, quase sempre um amor de desencanto e uma dor que n\u00e3o para nunca. Eis a <strong>cidade de S\u00e3o Paulo, 468 anos, o funk, as comunidades de barracos de t\u00e1buas e pl\u00e1stico entregues \u00e0 pr\u00f3pria sorte<\/strong> e seja o que Deus quiser, o pancad\u00e3o que invade as noites como se a cidade fosse de delinquentes que mandando no peda\u00e7o e fazem o que bem entendem passando por cima de tudo, a cidade de S\u00e3o Paulo, 468 anos, os moradores de rua que comem da lata do lixo, esses que nada t\u00eam nem nunca ter\u00e3o, sen\u00e3o a rua, a mulher, os filhos, o cobertor ralo debaixo do viaduto, nas beiradas dos pr\u00e9dios, esta a cidade que tantos amamos pelo seu desprezo a tudo que \u00e9 belo, pela destrui\u00e7\u00e3o de tudo que brilha, pelo desamor de suas autoridades.<\/p>\n<p>Eis a cidade, S\u00e3o Paulo de todos os \u00f3dios e de todos os amores para sempre, de homens brutos e mulheres fr\u00e1geis que desaparecem e se transforma somente em mais um n\u00famero, eis a cidade, a grande cidade de todos n\u00f3s, que comemora 468 anos e nem sabe, esquecida que est\u00e1 dela mesma, talvez num <strong>beco da rua Aurora, ou nas floriculturas do Largo do Arouche onde os namorados ainda v\u00e3o comprar rosas vermelhas,<\/strong> a cidade das igrejas, a cidade da Consola\u00e7\u00e3o, das saidinhas de final de ano, <strong>das saidinhas dos bancos, do dinheiro escasso, as motos no meio do tr\u00e2nsito e do caos<\/strong>, a agress\u00e3o a todo instante, os momentos amargos, essa <em>amarguridade<\/em> de sempre que faz parte de sua tez, seu rosto marcado de cicatrizes, a cidade de 468 anos, desumana mas tamb\u00e9m solid\u00e1ria, sempre de bra\u00e7os abertos nos momentos dif\u00edceis, a grande cidade que se perde em seus limites de viol\u00eancia, haveremos de comemorar <strong>comendo o imenso bolo das senhoras do Bixiga de Adoniram Barbosa.<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00e3o Paulo do Cemit\u00e9rio de Vila Formosa onde est\u00e3o aqueles encontrados nas valas, que n\u00e3o t\u00eam nome nem fam\u00edlia<\/strong>, S\u00e3o Paulo de tanto amor, que tanto amamos e tanto machuca, S\u00e3o Paulo, a cidade que d\u00f3i mas a dor de sempre e segue, segue, segue atravessa seus descaminhos e seus perigos, o sonho ainda poss\u00edvel de sonhar, a cidade de sombras e tamb\u00e9m encantamentos, \u00e9 preciso amar a cidade, amar a cidade com esse amor mesmo ferido. Eis a cidade de S\u00e3o Paulo, <strong>a cidade de todos n\u00f3s, a cidade-mundo, de todos, dos que est\u00e3o \u00e0 margem, dos que choram, dos que riem,<\/strong> eis a cidade de S\u00e3o Paulo, 468 anos, a cidade que nos pertence e a ela pertencemos com nossa raiva e \u00e0s vezes sil\u00eancio, \u00e0s vezes aus\u00eancia, \u00e0s vezes um abra\u00e7o que se alonga e n\u00e3o se esquece nunca. Eis a cidade de S\u00e3o Paulo, 468 anos, cidade de todos n\u00f3s, viva, constante, amarga, escura e de muito brilho de um sol que s\u00f3 ela tem.<\/p>\n<p><i><strong>*Esse texto n\u00e3o reflete, necessariamente, a opini\u00e3o da Jovem Pan.<\/strong><i\/><\/i><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><script async src=\"https:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/all.js#xfbml=1\"><\/script><script>\n      !function(f,b,e,v,n,t,s)\n      {if(f.fbq)return;n=f.fbq=function(){n.callMethod?\n      n.callMethod.apply(n,arguments):n.queue.push(arguments)};\n      if(!f._fbq)f._fbq=n;n.push=n;n.loaded=!0;n.version='2.0';\n      n.queue=[];t=b.createElement(e);t.async=!0;\n      t.src=v;s=b.getElementsByTagName(e)[0];\n      s.parentNode.insertBefore(t,s)}(window, document,'script',\n      'https:\/\/connect.facebook.net\/en_US\/fbevents.js');\n      fbq('init', '474441002974508');\n      fbq('track', 'PageView');\n    <\/script><br \/>\n<br \/><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/jovempan.com.br\/opiniao-jovem-pan\/comentaristas\/alvaro-alves-de-faria\/sao-paulo-468-anos-cidade-desumana-generosa-que-amamos-e-odiamos-da-cracolandia-da-paulista-e-do-caos.html\">Source link <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No anivers\u00e1rio da capital, o poeta \u00c1lvaro Alves de Faria escreve uma cr\u00f4nica sobre a metr\u00f3pole; confira abaixo ALF RIBEIRO\/ESTAD\u00c3O CONTE\u00daDOCena noturna da ciclovia da Avenida Paulista, na regi\u00e3o central da cidade de S\u00e3o Paulo Eis a cidade de S\u00e3o Paulo, 468 anos. 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